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Saturday, September 25, 2004

Ryan’s Well

Dizem que, quando se fecha uma porta, abre-se uma janela. Ontem aconteceu-me isso mesmo.
Para entreter a insónia que alguns acontecimentos recentes trouxeram para a minha companhia, fiquei a ver o canal Odisseia.
Tomei conhecimento da história linda do Ryan, de seis anos, que trabalhou para ganhar 70 dólares destinados à compra de uma fonte para os povos de África.
Toda a história aqui

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Tuesday, September 14, 2004

O pão

Quando terminei a instrução primária, como se chamava na altura, tinha nove anos e fiz as primeiras férias em família. Não sei se já havia o hábito de gozar férias, se os miúdos iam simplesmente para casa dos avós, para dar aos pais uma espécie de férias. Nunca me mandaram para casa dos avós porque a única avó que me restava vivia connosco. Foi assim que me encontrei num comboio, com as nossas malas, uma sacada de peixe frito, era a única forma de ser transportado sem se estragar, um fardo de bacalhau e uma saca de farinha. O destino era a casa de uns tios, numa aldeia tão perdida na Beira-Baixa que nem sequer consta dos mapas. Em Vila Velha de Rodão, fez-se o transbordo de gentes e mercadorias para uma carroça puxada por um burro que lá foi avançando lentamente sob um sol abrasador e um calor sufocante.
Na escola tinha aprendido o que eram cidades, vilas e aldeias mas, não estava minimamente à espera do que encontrei. Um lugarejo em forma de ângulo recto de pernas para o ar. Numa ponta era a eira, na outra o forno de cozer o pão. Pelo meio uns casebres de pedra negra e chão de ardósia como as ardósias que se usavam na escola mas bem mais grosseira.
A família esperava-nos numa espécie de pátio frente à casa, coberto de vimes verdinhos acabados de espalhar. Fomos efusivamente beijados, não me passava pela cabeça ter uma família tão numerosa, quase jurava que estava lá a aldeia em peso. A entrada da casa foi uma grande desilusão e até um pequeno susto. O acesso era através de uma espécie de casa de jantar que tinha duas portas, uma estava escancarada e havia fogo lá dentro. Explicaram-me que era a cozinha, não havia qualquer chaminé, o lume ocupava quase todo o chão e havia panelas pretas com pernas, a fumegar. O fumo saía por um buraco no telhado feito nas telhas, Não havia tecto. Só as telhas! Não havia luz eléctrica, enquanto uma candeia de azeite alumiava a entrada, o resto da casa era iluminado pelas chamas da cozinha. Tinha de se passar de lado para ir para os quartos que davam todos para a cozinha. Nos quartos só cabia uma cama e um armário. Não tinham janelas. Foi o segundo susto. Não que tenha medo do escuro, quem nasceu no tempo das candeias de azeite não tem medo de escuro, mas acho que sofro um pouco de claustrofobia e não me estava a imaginar a dormir num quarto daqueles.
Não dormi. A outra porta dava para um quarto, com janela. Não tinha vidros mas portas de madeira e sentia-se o ar entrar pelas frinchas. Nem me lembro se jantei. O dia tinha sido tão cansativo que adormeci de imediato mesmo com a roupa que tinha vestida.
Não sei qual dos meus sentidos despertou primeiro na manhã seguinte. O cheiro dos lençóis corados ao sol, se da palha fresca do colchão, se a claridade que se filtrava pela janela de madeira, o canto dos pássaros ou o cheiro dos ovos estrelados com salpicão. Saltei da cama à procura da casa de banho, divisão que não recordava ter visto na véspera. Era uma casota fora da casa, com um lavatório de pés de ferro e não havia qualquer banheira. O chuveiro era um balde com o fundo furado que a minha Mãe já enchera com água tépida, indiferente aos protestos do meu Pai que enquanto pendurava o balde numa trave, dissertava sobre as virtudes de um banho frio logo pela manhã. Foi um belo banho, puxava o cordel, caía água, largava o cordel, parava. Diverti-me, não fosse ter ficado logo com os pés, as pernas e as sandálias brancas do pó branco daquela terra branca. Isso resolvi no dia seguinte, amarrei as sandálias, pendurei-as no ombro e, nunca mais as calcei.
O pequeno almoço foi, ou ia sendo, uma desilusão. Detestei, detesto e detestarei o leite de cabra. O que me valeu foi o restinho de ovos estrelados que o meu Pai deixara na sertã.
Estava eu a deliciar-me com os ovos quando chegaram os meus tios para almoçar. Almoçar? Deviam ser dez da manhã! A minha tia pegou numa panela preta que tinha ficado no borralho e serviu os pratos com couves batatas e nabos mas, o que me chamou mais a atenção foi aquele pão negro que também estava em cima da mesa. Já sabia que lá na aldeia só havia carne quando se mata o porco, ou nos dias de festa que é a vez das galinhas ou dos coelhos.
Quando se mata o porco fazem-se os enchidos, os presuntos, que se penduram à volta da cozinha para ‘fumarem’ e o resto da carne vai para a salgadeira. Agora aquele pão preto é ninguém tinha referido. Comecei a perceber porque tínhamos levado a saca da farinha. Lá na aldeia não havia mercearias (supermercados nem em Lisboa), nem padarias, nem comércio nenhum. As pessoas bastavam-se a si próprias, viviam com o que produziam e só ganhavam um dinheirito para o resto, com a venda das cabras e dos queijos.
Não vou alongar-me mais nas descrições porque afinal comecei esta narrativa por causa do pão.
O dia seguinte foi de grande azáfama e a miudagem ficou arredada da zona do forno. A nossa presença só servia para levantar pó e a farinha tinha de ser amassada e depois de uma reza e uma cruz, ficava a levedar. O forno estava aceso e nem nos apetecia aproximar porque o calor era sufocante. Havia no entanto no ar um cheirinho que se foi acentuando. Pouco depois do cheiro da caruma começou a cheirar a pão quente e a nossa distância do forno foi-se encurtando e foi ficando te tal forma reduzida que já se via a comprida bancada coberta de panos brancos e os pães acabadinhos de sair do forno. De um lado os nossos pães brancos, deslavados com cara de quem precisa de um caldo de galinha, do outro, belos pães, loiros, escuros, perfumados, enfim uma tentação.
Acercámo-nos da bancada perante os protestos das tias todas enfarinhadas, e dos avisos: - Cuidado estão quentes!
Mas já era tarde, aquele perfume toldou-me o raciocínio e agarrei num pão escuro, negro, de belo centeio e dei-lhe uma dentada.

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Thursday, September 09, 2004

A casa

Quando a quinta que o meu Pai tinha lá no alto foi vendida em talhões, tivemos que nos mudar para o pé do rio. Não tive pena. Afinal nunca tinha gostado daquela quinta. Excepção feita a um pessegueiro, nunca mais encontrei pêssegos tão bons, aos borreguinhos de olhos meigos velados por pestanas brancas, a ruminar ervinhas secas e as roseiras que exalavam um belo perfume, agradecidas pela rega da tardinha. Também nunca gostei das rosas que se escancaram todas, desavergonhadas como mulher da rua, gostava de umas vermelhas, muito escurinhas que morriam sequinhas mas sempre em botão. Enfim ignorância.
Infelizmente a casa à beira do rio foi uma desilusão. Tirando as escapadelas até à praia que ficava bem perto, ninguém se podia aproximar do rio, de tão poluído e malcheiroso era um paraíso mas, apenas para as melgas.
Assim os anos foram passando sem que soubesse bem a que lugar pertencia, mas sentindo que as minhas raízes tinham ficado no casarão onde nasci e onde acabámos por voltar. Foi durante esse tempo que senti curiosidade sobre os destino da quinta, vendida em lotes para construção e, todos os dias ao cair da tarde deambulava pelas ruas da vila, bairro acima, tentando localizar um sinal, uma escarpa, um resto de pessegueiro ou um tronco de roseira. Mas nada, só belas vivendas rodeadas de jardins cheios de relva com os chuveiros a cantar monotonias de dias ensolarados. Foi para ouvir esse canto de paz que me detive a olhar para a casa. Não tinha parede, só uma grande vidraça separava a sala do jardim e, fiquei ali em êxtase perante toda aquela profusão de luz. Claro que na minha casa havia luz, um candeeiro no tecto e nas secretárias, mas ‘aquilo’ era diferente. Tanto quebra luz, tanta cor diferente... não foi instinto de bisbilhotice, nem sei dizer se havia lá alguém a ler um livro ou a tocar piano, foi a luz que me deslumbrou, foi a parede envidraçada que me permitiu sem mais nem menos devassar a intimidade de alguém que nunca soube quem era. Voltei lá muitas vezes, sentava-me na borda do passeio em frente e ficava a olhar, a olhar, até que o meu estômago reclamava algum alimento e me trazia de volta a casa do rio.

Uma noite incendiaram o caixote do lixo e, por um triz, não pegaram fogo ao carro que estava estacionado ali ao lado. Nunca ninguém soube quem foi, mas todos sabiam que passava as minhas tardes ali, a olhar, a olhar.
Ninguém me acusou, de viva voz, mas os olhares carregados, a mudança de passeio quando me avistavam ao longe foi mais eloquente que todas as palavras juntas.
Porquê, porque iria eu deitar fogo a um dos locais mais bonitos que encontrei na minha vida? Ainda hoje recordo o sabor amargo da condenação sem direito a uma defesa, sem direito sequer a uma palavra.
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Tuesday, August 31, 2004

Francisco ou Aguaceiro foi um nick, nada mais. Já não tem razão de existir.
Termina aqui com a frase de Miguel Sousa Tavares.

" ... E, de novo, acredito que nada do que é importante se perde
verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos
instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os
amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi
nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre".

Sunday, August 22, 2004

Maré, esta é a minha resposta a um comentário que deixaste um dia destes de passagem:

Todos os caminhos e carreiros da floresta se encherão de miosótis.
Todos os pássaros chilrearão á tua passagem canções de Amor.
Todas as fontes brotarão águas cristalinas que encherão os rios, os rios os Mares, os Mares os Oceanos e, haverá uma tal Maré Alta que, todas as praias ficarão cheias de conchas, búzios e estrelas do mar, que espalharão no ar um indescritível perfume de maresia.
Todas as árvores, sararão as suas feridas dando folhinhas, flores e frutos e pairará no ar um perfume inebriante de flores e de vida.
Tudo o que é vida se manifestará numa festa colorida e perfumada para te receber, porque só sabes ser feliz se os outros estiverem felizes.


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Esta imagem veio pela mão da Du
Amanhã inicio uma curta viagem mas, espero estar de volta para acender uma fogueira na praia, no dia do teu regresso. Espero que venham muitos amigos com suas cestas e petiscos para fazer um grande pic-nic.
Estão todos convidados

Saturday, August 21, 2004

Um post por dia!

Nem sabes o bem que me sabia.
Mas estou tão oco como as àrvores em que se guardam segredos
Encontrei este texto nas horas em que digo que durmo.
Ofereço-to.
Sabes que o Homem Banal voltou a agitar as águas?

Latifúndio X mar

"O latifúndio é o mar interior. Tem seus cardumes de peixes miúdos e comestíveis, suas barrancudas e piranhas de má morte... É mediterrâneo...dizer que o latifúndio é um mar...se esta água agitarmos , toda a outra em redor se move, às vezes de tão longe que os olhos o negam, por isso chamaríamos enganadamente pântano a este mar, e o que fosse.. Este é o grande mar do latifúndio... A este mar do latifúndio chegam ressacas, pancadas, empurrões das águas e quando às vezes basta derrubar um muro, ou simplesmente saltá-lo...muito se irá falar do latifúndio, qual mar, qual nada, o que isto é, é terra as mais das vezes seca, por isso é que os homens dizem Quando será que matamos a sede.
José Saramago

Monday, August 16, 2004


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Foto de Armando Cardoso

As feridas das árvores sangram como as das pessoas.
As feridas das pessoas, tal como as das árvores, quando secam, às vezes dão flor.

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